sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Andreia Fuzeta (10ºD) - As Aventuras de João Sem Medo

(bilhete do teatro)
José Gomes Ferreira (1963)

Para saber mais sobre o autor:
http://www.astormentas.com/din/biografia.asp?autor=Jos%E9+Gomes+Ferreira
http://www.citi.pt/cultura/literatura/poesia/j_g_ferreira/



João Sem Medo morava com a sua mãe em Chora-Que-Logo-Bebes, uma pequena aldeia onde todas as pessoas, os choraquelogobebenses, passavam os dias a chorar, bastante infelizes com a vida.
Um dia, farto de tudo aquilo e de toda a infelicidade que reinava na sua aldeia, decidiu saltar o Muro que estava construído perto da aldeia, em volta da Floresta Branca. Essa atitude de João foi contrariada pela sua mãe, mas ele não quis saber.
Depois de ter passado o Muro deparou-se com vários obstáculos:
Escolher caminhos difíceis para pensar por si mesmo, pois para ter uma vida mais fácil teria que “consentir que lhe cortassem a cabeça para não pensar”;
Dificuldades contra uma natureza feroz que representava as dificuldades da vida quando se quer ser livre e não ter medo;
- Foi transformado em árvore;
- Fugiu da Morte;
- Passeou num gramofone com asas;
- Terras onde faziam tudo ao contrário;
- Desertos, onde sacrificou tudo, até mesmo a cabeça, pelas coisas mais elementares como os alimentos;
- Sala sem portas, onde estava a Fada dos Sonhos que podia realizar qualquer desejo do João Sem Medo, mas apenas por 5 minutos;
- Reino do Príncipe de orelhas de burro que se julgava muito belo;
- Conheceu o cavalo de D. Quixote;
Todas estas aventuras, e mais algumas, puseram à prova João Sem Medo.
Como já sentia algumas saudades de casa, decidiu voltar a Chora-Que-Logo-Bebes. Mas no regresso a casa ocorreram-lhe algumas dificuldades para voltar a saltar o Muro, pois não tinha condições para tal e o Guardião da Pedra não o deixava passar. E a solução foi “fazer” dois João Sem Medo para ficar um em cada lado do Muro.
O que voltou para Chora-Que-Logo-Bebes enriqueceu ao abrir uma Fábrica de Lenços, pelo menos assim conseguiu vencer as lágrimas que o atormentavam todos os dias.

Apreciação Crítica: Com esta história, José Gomes Ferreira quis transmitir que se deve combater a monotonia e a chatice do nosso dia-a-dia, utilizando a imaginação de cada um.
Aconselho a todos que leiam este livro, porque é um livro bastante engraçado e cheia de aventura.

Comparação desta obra com a peça de teatro que vi no TAS (Teatro Animação de Setúbal): A peça de teatro consegue mostrar os pontos mais importantes que a obra transmite. Está muito bem conseguida e os actores interpretam bastante bem as suas personagens, principalmente Miguel Assis que faz de João Sem Medo e Duarte Victor que faz de várias personagens, por exemplo a Fada dos Dois Caminhos, que estava muito engraçada. Gostei realmente da peça.
Excerto seleccionado

“― Bem – pensou. ― Cá estão os dois caminhos fatais: o do Bem e o do Mal. (Como se houvesse caminhos nítidos do Bem e do Mal!) Já esperava por eles. Agora, para completar a comédia, falta apenas a respectiva fada… Uma fada a valer, de varinha de condão, que regule o trânsito à laia de polícia sinaleiro. Lá sem fada é que eu não passo.
E pôs-se de novo aos gritos de troça:
― Eh! Fada dos bosques! Aparece, rica fada da minh’alma.
Então ― ó pasmo dos pasmos! ― João Sem Medo viu sair da espessura da floresta um ser prodigioso que de longe parecia uma mulher jovem e bela, cabelo loiro até à cintura, três estrelas de prata na testa, varinha na mão direita, roca na mão esquerda, túnica bordada de rubis e esmeraldas, chapinsdellatina e tudo o mais que as fadas costumam usar nos bailes de Entrudo.
No primeiro momento contemplou-a, deslumbrado. Mas, à medida que a observava mais de perto, o sorriso inicial desfez-se pouco a pouco em caretas de desconfiança.
― És a Fada dos Dois Caminhos? – inquiriu, duvidoso. ― Palavra? Mostra cá o bilhete de identidade.
― Não acreditas? – protestou, para desviar a conversa, a hipotética fada com voz aflautada, voz de máscara aos guinchos. ― Sim, sou a Fada Infalível, a Fada Lugar-Comum…
― Acredito, acredito… – concordou o rapaz por zombaria complacente.
E insistiu em examiná-la, com manifesta vontade de rir. E com razão. Pois a pseudo fada parecia… Parecia, não. Era… Era mesmo um homem vestido de mulher, como se deduzia no desarrumo da cabeleira postiça à banda, no negror evidente da barba mal disfarçada por várias camadas de pó-de-arroz, além da maneira canhestra e hirta de andar e da falta daqueles mil e um ademanes femininos tão difíceis de imitar pelos homens. O jeito de pentear os cabelos com os dedos, por exemplo.
Embora não desejasse humilhá-lo, João Sem Medo não evitou um incondescendente riso de chacota.
― Que queres, filho? – explicou a fada falsificada, vexadíssima, a tropeçar na túnica. ― Quando telefonaram para a Repartição da 3ª Mágica a requisitar uma funcionária, só me encontrava lá eu, que sou contínuo, e uma fada já muito velhinha, muito perra, entrevada de reumatismo e com mais de 50 000 anos de serviço activo, quase na idade da reforma por inteiro, coitadinha! E então, por uma questão de prestígio, ofereci-me para esta fantochada. Nem quero pensar no que diria o Mago-Mor se não mandássemos uma fada válida para os Dois Caminhos. Pregava-nos uma descompostura tremenda. Foi por isso que me mascarei e vim… Não julgues, porém, que não percebo de artes mágicas! “


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